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quarta-feira, 18 de junho de 2008

Entrevista Com o Vampiro (1994)



Nome: Entrevista Com o Vampiro (Interview with the Vampire: The Vampire Chronicles).
Diretor: Neil Jordan.
Gênero: Drama/Horror/Fantasia.
Elenco: Tom Cruise, Brad Pitt, Antonio Banderas, Kirsten Dunst e outros.
Nota: 4 estrelas.
Página no IMDb

Toda vez que a figura folclórica do vampiro vem à baila, não se pode deixar de lembrar de dois autores: o primeiro, Bram Stoker: autor do famoso romance "Drácula", que deu forma ao mito; a segunda, Anne Rice: responsável por "humanizar" de certa forma os vampiros, mas dando-lhes também algumas características que permanecem até hoje com eles na maioria das suas aparições recentes: a beleza surreal e a inegável sensualidade e erotismo que envolvem os ataques e sua transformações em vampiros.

"Entrevista Com o Vampiro" é o primeiro volume das crônicas vampirescas de Anne Rice e, também, o primeiro de seus trabalhados levado ao cinema (sendo que a própria Anne Rice se encarregou de fazer a adaptação do livro para as telas, assinando o script), divergindo em alguns pontos com a história contada originalmente no livro, mas mantendo o mesmo tom no geral.

Somos inicialmente apresentados a um jovem repórter (Christian Slater), prestes a entrevistar um homem misterioso que se diz um vampiro. Cético, o garoto só se convence quando o vampiro em questão se move rápido demais para olhos humanos, finalmente dando início a uma longa narrativa sobre a história da sua vida - antes e depois da sua "transformação".

O vampiro se apresenta como Louis (Brad Pitt), um homem de 24 anos em 1791, vivendo no antigo Estado de Louisiana e ainda parte da França. Dono de uma plantação imensa, ele havia acabado de perder a esposa no parto do primeiro filho, tendo enterrado ambos há poucos meses e sofrendo duramente com a perda; sem motivos para viver e desejando parar com a dor que sentia de algum modo, Louis era o alvo perfeito para qualquer saqueador ou bandido - mas foi um vampiro que o encontrou numa noite.

Lestat (Tom Cruise) foi quem encontrou Louis, atacando-o para logo depois oferecer-lhe uma chance em uma nova vida, longe de toda dor e sofrimento que os mortais conheciam. No dia seguinte, o jovem decide aceitar a chance de uma vida diferente, assistindo seu último nascer do sol e finalmente tornando-se um vampiro - o procedimento, relativamente simples, consistia na quase total drenagem do sangue do seu corpo por Lestat, que depois lhe oferece do seu próprio sangue para beber.

Louis passa primeiro pela morte do seu corpo, que se adapta à sua nova condição de vampiro. Aos poucos, ele começa a enxergar as coisas de uma maneira diferente, a ouvir melhor os barulhos noturnos e a sentir-se como parte da noite. Lestat ensina-lhe o básico: como dormir dentro de caixões para se proteger da luz do sol e como atacar humanos durante a madrugada, mas Louis não suporta a idéia de ferir um mortal ou trazer-lhe sofrimento, passando a viver do sangue de animais quando descobre que tal fato é possível.

As constantes tentativas de Lestat de "converter" seu companheiro aos modos naturais dos vampiros acabam por descontrolar Louis que, em um impulso, ataca uma das empregadas da sua casa, matando-a. A essa altura, todos os escravos da fazenda já suspeitavam gravemente do seu antigo mestre, de forma que ele decide sair dali, incendiando a mansão e gritando para que os escravos se salvassem dele - supostamente o "diabo".

Os dois se mudam para Nova Orleans, onde Lestat continua matando indiscriminadamente - algo, segundo ele, que torna os vampiros as criaturas mais próximas de Deus. Após um espetáculo particularmente cruel do vampiro mais velho envolvendo duas garotas, Louis sai vagando pelas ruas da cidade, perturbado e quase sem consciência de onde ele está indo até se achar em uma região miserável da cidade, atraído pelo grito de uma criança. Sem conseguir se conter, ele morde a pequena menina que não parecia perceber que sua mãe havia sido consumida pela praga terrível que assolava a cidade.

Lestat encontra os dois e é justamente o aparecimento do outro que evita que Louis drene a garota por completo, deixando-a doente devido à falta de sangue. Na noite seguinte, o próprio Lestat mostra que a única saída é transformá-la também em um vampiro ou então entregá-la à morte, de forma que o mais novo dos dois vampiros opta por permitir a transformação da garotinha, prontamente nomeada Claudia (Kirsten Dunst); a chegada dela impede que Louis abandone Lestat, e os três passam a constituir uma espécie de "família".

Enquanto Claudia desenvolve um gosto voraz e sem culpa para matar como Lestat, ela também tem um forte laço com o mais novo dos vampiros, sendo mimada pelos dois "pais" que possui. Em certo ponto, porém, ela se dá conta de que nunca irá mudar fisicamente, sendo condenada a uma eternidade em um corpo de aproximadamente dez anos. Ela sente ódio de Louis e Lestat - do primeiro, por ter se alimentado dela; do segundo, por tê-la transformado - mas acaba eventualmente perdoando Louis, a quem considera seu amor e criador. Ambos, no entanto, sentem que devem sair da cidade e procurar por respostas sobre os vampiros e sua natureza, já que Lestat ou recusa compartilhar seu conhecimento ou então esconde sua ignorância sobre essas questões.

Por meio de um plano genial, Claudia se livra do vampiro mais velho, passando a estudar os mitos e lendas sobre vampiros enquanto esperam o dia da viagem por navio para a Europa. Enquanto ambos davam pelo antigo companheiro como morto, Lestat, porém, volta em uma forma cadavérica e em que nada lembra sua figura sedutora e charmosa de antes, tendo sobrevivido à base de sangue de animais. Louis, enquanto tenta proteger Claudia da ira do outro vampiro, incendeia Lestat e a casa junto, fugindo para o barco e para longe do continente com a garota.

É somente depois de muito tempo, em Paris, que Louis acaba encontrando outro vampiro - justamente quando já tinha cansado de procurá-los. Armand (Antonio Banderas) lhe dá um cartão e convida tanto Louis quanto Claudia para uma apresentação no Théâtre des Vampires, um local onde só são admitidos aqueles previamente convidados. No local, uma trupe de vampiros atores se passam por humanos encenando vampiros - enganando a audiência composta, na sua maioria, por mortais também.

Depois do espetáculo, os dois visitantes são convidados por Armand a conhecer o subterrâneo do lugar, onde respostas vagas relacionadas aos questionamentos de Louis são dadas. Aparentemente o líder dos vampiros que habitam o teatro, Armand oferece um lugar ali para o recém-chegado (e agora americano, com a entrada da Louisiana para a federação dos Estados Unidos) sendo que a mesma cortesia não é estendida à Claudia - pelo contrário. Pelo modo como a conversa se passou entre Louis, Claudia e Armand, os outros vampiros do lugar começam a suspeitar que eles mataram seu mestre, sendo esse o único crime punível com morte ali: matar um semelhante.

A garota sente que algum sentimento estranho nasceu entre o líder dos vampiros do teatro e Louis, de forma que ela busca por uma substituta para quando Louis decidir abandoná-la: Madeleine (Domiziana Giordano) aceita a missão e pede, durante uma noite, para ser transformada pelo vampiro, a fim de que possa cuidar eternamente de Claudia da forma como ela merce e precisa. Madeleine, uma artesã especializada em lindas bonecas, perdera uma filha e a idéia de uma nova filha que jamais morreria seria perfeita. Embora o vampiro insista que jamais deixará a garota, ele acaba por transformar a outra mulher - perdendo, nesse ato, o pouco de humanidade que ainda lhe restava ao praticar o ato que ele jurara nunca executar em um mortal.

Os três são então surpreendidos pelos vampiros do teatro, sendo arrastados até o subterrâneo do mesmo novamente. Convencidos do crime de Claudia, ela e Madeleine são condenadas à morte enquanto Louis é colocado em um caixão e emparadado a seguir. Só na noite seguinte Armand aparece, salvando o vampiro do seu confinamento e deixando que ele descubra que as duas mulheres foram queimadas vivas pelo sol.

Desolado, Louis incendeia o teatro e mata os vampiros que lá habitavam, com a exceção de Armand - que sabia das intenções do outro e mesmo assim nada fez para evitar o massacre. Ele mais uma vez oferece um lugar a Louis, que recusa, descobre que a morte de Claudia foi intencional da parte do outro vampiro e finalmente deixa-o em definitivo, viajando pelo mundo.

Já nos dias atuais e de volta à Nova Orleans, Louis reencontra Lestat, sozinho em uma casa abandonada e com medo da modernidade. Embora ele insista para que Louis volte a viver com ele, a oferta é recusada e a entrevista também termina. O jornalista, então, pede veementemente para que ele seja transformado em um vampiro, após o inconformismo com o final da história de Louis - sendo surpreendido por uma explosão de raiva por parte de Louis, que desaparece. Com medo, o garoto sai correndo de volta para o carro, onde inesperadamente encontra Lestat, que o ataca e promete dar a ele "a chance que nunca teve".

O primeiro detalhe a ser comentado é a performance de Tom Cruise - embora eu imagine Lestat muito mais bonito, é inegável que ele é Lestat; o vampiro malicioso, cruel e fascinante criado por Anne Rice simplesmente se tornou vivo na pele do ator, que teve sua contratação para o papel questionada e criticada pela própria autora do livro. Após assistir o resultado final, porém, Anne Rice chegou a pagar mais de milhares de dólares por duas páginas na Vanity Fair para elogiar a atuação de Tom Cruise e o filme em geral.

Outra revelação e que garantiu a maioria das indicações de prêmios que o filme recebeu foi Kirsten Dunst. A atriz demonstrou a inocência de uma criança e, ao mesmo tempo, as complexas maquinações de uma mulher adulta com a idade que tinha na época - 12 anos apenas. Não há como não admirar o talento e a maturidade da atriz no seu papel, angelical na aparência como Claudia pede.

O resto do elenco é talentoso e contribui para a atmosfera sombria, sensual e cheia de suspense nas horas corretas, mas alguma coisa fica faltando - não sei dizer o quê. Apesar de tudo, prefiro o final dado ao filme do que aquele contado no livro, simplesmente porque o Lestat de Tom Cruise é tão delicioso e seu sarcasmo ao fim combina tão bem com tudo que se contou até aquele momento que a cena ficou perfeita, com nada mais nada menos que "Sympathy for the Devil" ao fundo, numa versão feita pelo Guns N' Roses especialmente para o filme.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

O Beijo da Traição (1998)



Nome: O Beijo da Traição (Judas Kiss).
Diretor: Sabastian Gutierrez.
Gênero: Policial/Drama/Suspense.
Elenco: Carla Gugino, Simon Baker, Alan Rickman, Emma Thompson e outros.
Nota: 3 estrelas.
Página no IMDb

O começo pode lembrar um pouco o estilo de Quentin Tarantino, mas a impressão passa com o desenrolar do filme; trata-se, afinal, de algo muito diferente. Logo de cara, assistimos a dois homens e uma mulher seqüestrarem um rapaz, atirarem numa mulher que descia as escadas e que os viu e correrem para um caminhão no estacionamento do prédio, onde um quarto integrante da trupe aguardava.

A única seqüestradora, então, começa a conversar com Jesus e a explicar o quê está acontecendo para ele e para a audiência. Ela é Coco Chavez (Carla Gugino), uma linda mulher que ganhava a vida até então criando armadilhas para divórcios com o namorado, Junior Armstrong (Simon Baker), onde ela normalmente seduzia o marido e o namorado aparecia para tirar fotos e apresentar as fantásticas demandas da mulher "traída".

No entanto, é Coco quem tem a idéia de mudar de ramo, partindo para o seqüestro: afinal, apenas um deles bem-feito e o resgate pode ser suficiente para uma vida inteira na beira da praia com um martini na mão. O casal primeiro convence Lizard Browning (Gil Bellows) e depois Ruben Rubenbauer (Til Schweiger) - o primeiro competente e intimidador quando ao telefone; o segundo assustadoramente estúpido e capaz das coisas mais bizarras.

Entram em cena logo depois a dupla encarregada de solucionar tanto o seqüestro quanto o assassinato da mulher que descia as escadas logo no começo do filme: são eles Sadie Hawkins (Emma Thompson), agente do FBI e David Friedman (Alan Rickman), detetive da polícia. Forçados a trabalherem juntos por suas tarefas estarem aparentemente ligadas, a troca de informações entre eles é o que vai ajudar a chegar ao eventual desenlace do caso.

Enquanto isso no cativeiro, Coco não está nada bem. Tendo matado pela primeira vez, ela se sente estranha e tenta aliviar a tensão de várias maneiras, seja fazendo sexo com o namorado ou procurando confortar a vítima do seqüestro com conversa (cujo resgate está orçado em "apenas" quatro milhões). Quem cuida do resgate é justamente Walters (Joey Slotnick), um funcionário leal e muito azarado que é acompanhado constantemente pela agente Hawkins, cujos conselhos ou pioram a situação ou então deixam o pobre mediador ainda mais nervoso.

Enquanto o FBI trabalha contra o relógio para encontrar o paradeiro do milionário desaparecido, o detetive Friedman vai atrás de pessoas que conheciam a mulher assassinada. Conversando com sua melhor amiga, ele eventualmente descobre que ela e o homem seqüestrado tinham um affair secreto, sendo terça-feira o dia dos encontros proibidos do casal. Intrigado, o detetive vai atrás do marido da mulher assasssinada, o senador Rupert Hornbeck (Hal Holbrook), depois de ter reunido provas do affair - somente para ser mal-tratado e ameaçado pelo viúvo ao tentar compartilhar as evidências encontradas (ligações telefônicas em um padrão constante entre os dois amantes).

O detetive começa a suspeitar de algo e vai atrás do colega que está substituindo - desde o início ele deixou bem claro que não queria aquela tarefa, mas seu chefe o forçou a assumi-la porque o outro detetive havia se machucado. Com alguma persuasão, ele descobre que o machucado do outro detetive é uma farsa, o que só aumenta as suas suspeitas.

A agente Hawkins, enquanto isso, se prepara junto com Walters para a entrega do resgate. O problema é que do outro lado, Lizard fica mudando os locais para onde o resgate deve ser levado, forçando tanto o FBI quanto o funcionário a correrem para diversos locais diferentes, de uma borracharia a um motel de beira de estrada, sempre cumprindo o horário espeficificado no telefonema para não correr riscos do pobre seqüestrado ser assassinado enquanto isso.

Junior e Ruben acompanham Walters, sempre escondidos da vista do mesmo, fornecendo por telefone os dados que Lizard precisa para convencer o FBI e o resto dos interessados no final do seqüestro de que ele está bem perto - e observando tudo. Coco permanece com a vítima no cativeiro, especialmente preocupada com o namorado e pensando no dia em que eles se conheceram, bem como os diversos momentos que eles já passaram juntos.

Walters consegue, em determinado momento, entregar a maleta cheia de dinheiro da forma como os seqüestradores haviam pedido, lançando-a de um trem em movimento sobre uma ponte. Ruben e Junior pegam a pasta, fugindo dos tiros e dirigindo apressadamente para longe dos agentes do FBI. É dentro do carro que Junior tem um problema, precisando descer para pegar algo no porta-malas do carro, deixando o outro seqüestrador com o dinheiro dentro do veículo - somente para aproveitar a pequena parada para matar Ruben, pegando o dinheiro, trocando de carro e sumindo dali. É o primeiro momento em que o título faz sentido com a trama.

O detetive Friedman, a essa altura, já desconfia bastante do senador, especialmente após uma conversa reveladora com seu chefe. Seguindo-o discretamente, ele percebe que, para começo de conversa, o seqüestro e o assassinato estavam interligados - bem como foi ele o responsável por orquestrar ambos. Do outro lado, é Junior quem está facilitando as coisas, deixando Coco e Lizard desarmados e revelando o local do cativeiro.

Mas Coco prova que não é apenas bonita - tem cérebro também. Em uma breve conversa com a sua pobre vítima, ela descobre sobre o affair que ambos mantinham, bem como a data dos encontros: terça-feira. Lentamente, ela se lembra de como o seqüestro havia sido planejado, Junior manipulando-a de forma que ela acreditasse que aquele seria um dia como qualquer outro e não um especial. Chocada com a possibilidade da traição, ela corre para as armas que haviam sido deixadas na casa e descobre todas sem munição, correndo em direção ao carro onde ela deixava um revólver de reserva.

Enquanto isso, os capangas do senador chegam ao cativeiro, dando início a torturas e todo tipo de humilhação por parte do político, que transmite sua voz por um rádio. Ao mesmo tempo, tanto Friedman quanto Hawkins já perceberam a trama, mas um acidente de carro que deixa ambos em condições improváveis de continuarem com a perseguição automobilística.

Prosseguir com o relato da história seria entregar o final por completo, coisa abominável quando se trata de um suspense. É, aliás, um noir que tem na traição o seu principal mote - afinal, quem está traindo quem no filme? A corrupção também corre solta, sobrando nos personagens de Alan Rickman e Emma Thompson a pouca decência das duas coorporações que representam e que parecem ter sucumbido ao poder do dinheiro.

É essa dupla também a responsável pelos melhores momentos de comédia do filme; seus diálogos são afiados e rápidos, regados com uma familiaridade que esses dois grandes nomes do cinema britânico não conseguiram de um dia para o outro: sua amizade dentro e fora das telas contribuiu para uma química invejável entre eles.

Já Carla Gugino funciona como a mulher fatal e com roupas coladas que é de praxe nesse tipo de filme; sua atuação, no entanto, não é espetacular a ponto de carregar o filme como narradora. Talvez, em um papel de menor destaque, essas falhas não seriam tão facilmente notadas. A Simon Baker também falta firmeza, na minha opinião; o jeito como ele atua durante todo o filme me parece forçado, demonstrando sempre a mesma cara e as mesmas reações em todos os pedaços.

O maior problema não é tanto com o elenco e sim mais com o enredo - o filme, para um seqüestro, se passa devagar demais. Com apenas uma trama principal, ela não poderia se desenrolar tão lentamente, descaracterizando o gênero. Os personagens também são mal apresentados, não ficando muito para o espectador descobrir, entender e apreciar cada um - salvo, talvez, pelo par já destacado e formado por Rickman e Thompson.

A localidade (Nova Orleans) também se mostra um pouco ingrata. O valor dado à paisagem foi mínimo, podendo muito bem ter se passado em qualquer lugar menos marcante (e mais barato). Os trechos aleatórios de um filme pornô com alienígenas, se muito, dão um tom de bizarro que não casa exatamente com o resto da trama - outra coisa que poderia ter sido dispensada.

No geral, é um filme divertido e com um final merecido, considerando a trama desenvolvida até então. Não perca uma das cenas finais, com o detetive e a agente totalmente estrupiados porém felizes: é um bom resumo do filme: muito esforço para não chegar a nenhum lugar marcante, mas suficiente para distrair e tirar bons momentos.

domingo, 21 de outubro de 2007

À Espera de Um Milagre (1999)



Nome: À Espera de Um Milagre (The Green Mile).
Diretor: Frank Darabont.
Gênero: Drama/Mistério/Fantasia.
Elenco: Tom Hanks, Michael Clarke Duncan, David Morse, Doug Hutchison e outros.
Nota: 5 estrelas.
Página no IMDb

Freqüentemente o cinema busca sua inspiração em outra forma de arte: a literatura. Desta vez, o autor escolhido foi Stephen King, um dos mestres do terror, subrenatural e suspense. E a adaptação cinematográfica faz jus à sua renomada obra.

O filme se passa como um longo flashback: Paul Edgecomb (Tom Hanks) conta a uma amiga sobre o verão do ano de 1935, quando era policial e trabalhava no corredor da morte de uma prisão no estado americano da Louisiana. O nome original do filme vem justamente do fato de que costumava-se dizer que os prisioneiros ali mantidos caminhavam sua última milha sobre um piso de cor verde da sua cela até a grande "atração" do local - a cadeira elétrica.

Um dia, um novo prisioneiro chega: seu nome é John Coffey (Michael Clarke Duncan), um negro de altura impressionante mas que se revela um gigante calmo: ele conversa delicadamente, tem medo do escuro e chora várias vezes - algo que parece terrivelmente ilógico dada a sua condenação pelo estupro e assassinato de duas garotinhas brancas.

A convivência entre os prisioneiros e os guardas é relativamente amistosa, com o respeito imperando ali. É costume que a execução de cada um deles seja treinada antes de ocorrer efetivamente, para impedir qualquer erro que prolongue o sofrimento dos condenados. A rotina é normalmente calma até o dia em que um pequeno rato aparece em frente a mesa dos policiais, que pede por comida e depois se esconde na solitária (utilizada como depósito), onde ninguém consegue encontrá-lo. O mesmo rato torna-se alvo da obsessão de Percy Wetmore (Doug Hutchison), um guarda que possui ligações poderosas mas adora estar ali porque pode intimidar, provocar e causar todo o tipo de sofrimento aos presos - um verdadeiro sádico, desprezado pelos seus colegas.

O mesmo ratinho volta a aparecer mais tarde, tendo sido "domado" por Eduard Delacroix (Michael Jeter), que o nomeia Mr. Jingles. O animalzinho passa a morar na mesma cela de Delacroix, e obedece todos os comandos do preso - um fato surpreendente para todos. Chega também à prisão um sujeito extremamente estranho: William Wharton (Sam Rockwell), que engana a todos como um falso louco e quase estrangula um dos guardas na sua chegada.

É com muito esforço que Wharton (ou "Wild Bill", como é conhecido) é controlado, e quando o guarda atacado é levado embora para ver um médico, Edgecomb se deixa cair no chão da prisão: ele sofre de uma estranha infecção urinária que não vai embora e que nos últimos dias vinha enlouquecendo-o de dor.

No chão e obviamente sofrendo, John Coffey começa a chamar pelo policial e pede para vê-lo - e apesar de dizer que aquela não é uma boa hora, Edgecomb atende o pedido no final - somente para ser agarrado pelo gigante e então ter seu problema curado.

Coffey consegue tocar a parte afetada e então transmitir para si mesmo a doença, depois então abrindo a boca e expelindo do seu próprio organismo tudo aquilo que tinha dentro do seu corpo. Depois desse processo, ele sempre sente um cansaço extremo e dorme, sem querer falar ou comentar sobre nada. Edgecomb comenta com Brutus Howell (David Morse) o milagre que ele acredita ter se operado, mas nenhuma outra prova a respeito dos poderes de John Coffey aparece.

A rotina na prisão segue normalmente, apesar das constantes interferências de Wild Bill - ele não gosta de nenhum dos outros presos e odeia principalmente os policiais, tendo feito todas as malcriações e se comportado do pior jeito possível com todos ali dentro. Ele apronta até mesmo com Percy Wetmore, que fica muito assustado com o fato, inclusive urinando nas próprias calças depois do nervoso e medo que experimentou nas mãos de Wild Bill - e em seguida ameaça o resto dos policiais de demissão, porque se alguma coisa a respeito daquele incidente se espalhasse, todos eles perderiam seus empregos, já que ele possuía conexões importantes.

É ele também que mata Mr. Jingles um dia, feliz por finalmente ter eliminado o rato que tanto lhe incomodava em proporções maiores do que o normal. Desesperado, a dor de Delacroix ao perder o seu animal de estimação é comovente - e os policiais ficam assustados com a crueldade e aparente insanidade de Percy também. É nesse momento que John Coffey pede para que lhe tragam o ratinho, dizendo que talvez ainda haja tempo para ele.

Sem entender nada, os policiais entregam o ratinho - e vêem Coffey trazê-lo de volta a vida, utilizando os mesmos poderes e o mesmo processo anteriormente empregado na infecção de Paul Edgecomb. Dessa vez, há testemunhas, sobretudo Delacroix - que não consegue expressar sua gratidão em palavras ao ver seu caro Mr. Jingles de volta. Percy, ao saber do ocorrido, recusa-se a acreditar em qualquer coisa como um milagre e se sente pessoalmente ofendido.

A vingança do guarda se dá da pior maneira: durante a execução de Delacroix. Ele havia pedido para o chefe da seção (Paul Edgecomb) para comandar uma única execução e então se mudaria para outro cargo, deixando o resto dos policiais livres dele, fato que todos enxergam como sendo benéfico. Cabe à pessoa que lidera às execuções na cadeira elétrica a colocar uma esponja cheia de água sobre a cabeça do condenado (em um lugar onde o cabelo foi previamente raspado) para que a eletrecidade seja conduzida mais rapidamente pelo corpo do preso e assim, ele morra mais rapidamente e sem tanto sofrimento. No entanto, seu ódio pelo antigo dono do ratinho faz com ele coloque a esponja seca na cabeça de Delacroix e autorize a execução.

A cena é grotesca: os gritos, a duração dos choques e o cheiro que a atitude de Percy causam chocam policiais e sobretudo as pessoas que vieram assistir à execução. Enquanto isso, John Coffey fica com Mr. Jingles nas mãos, aparentemente sentindo uma parcela da dor de Delacroix, inclusive fazendo com que o ratinho escapulisse das suas mãos e fugisse da prisão. As lâmpadas ao longo do corredor da prisão estouram na medida em que Coffey se esforça para minimizar o sofrimento do antigo colega de prisão.

Dois importantes fatos se seguem então: convencidos dos poderes sobrenaturais que Coffey possui, os guardas, liderados por Paul Edgecomb, traçam um plano para levá-lo até a esposa do chefe deles (James Cromwell), que tem um tumor no cérebro e que está provocando a sua morte. No meio do plano, eles acabam também punindo Percy pela execução de Delacroix, deixando-o amordaçado e preso numa camisa de força dentro da solitária. No entanto, antes que consigam sair com John Coffey pelo
corredor, ele é agarrado por Wild Bill e algo estranho se dá entre eles - algo que deixa Coffey profundamente perturbado mas que ele não confidencia a ninguém.

A cura do câncer funciona perfeitamente - e as demonstrações que cercam a todos enquanto o processo ocorre são fortes demais para serem ignoradas, como por exemplo a casa toda tremendo. Dessa vez, porém, Coffey não retira de dentro de si o grande mal que absorveu, o que preocupava gravemente os policiais. Mas também, eles não julgam Coffey por isso - se ele prefere morrer de câncer a morrer na cadeira elétrica, ninguém o culpa por isso.

Mais tarde John Coffey acaba conseguindo punir os dois "homens maus" que existiam por perto segundo ele (Wild Bill e Percy Wetmore), cada um recebendo um castigo diferente. Conforme a execução de Coffey se aproxima, os policiais tentam fazer de tudo para ajudá-lo, ainda mais por saberem que ele é, no final das contas, inocente - mas o gigante se recusa a continuar vivendo em um mundo onde tanta desgraça e dor existem. Com uma refeição diferenciada e tendo o desejo de assistir a um filme atendido, ele é levado para a sua execução, onde os guardas mal conseguem conter a emoção.

A execução dele se dá sem o capuz que os presos normalmente vestiam - ele continua tendo medo do escuro. Os pais das garotinhas assassinadas aparecem para o acontecimento assim como um bom número de pessoas, todas condenando Coffey, um homem bom e que é definitivamente um milagre enviado por Deus para a Terra. Paul não sabe como Deus irá perdoá-lo por ter matado um dos seus milagres, e ele se desliga do corredor da morte pouco depois.

O filme retorna ao presente, com o já velhinho Edgecomb finalizando sua história, que não convence a amiga que a ouviu pacientemente. Mas ainda existem provas da veracidade dos fatos que deixam a senhora perplexa - bem como todos os espectadores. O final, com linhas poéticas carregadas de emoção, levam qualquer um às lágrimas e indagações profundas a respeito do mundo e da sua cruel realidade.

O filme é longo, com praticamente três horas - mas não se sente o tempo passar. O filme é uma verdadeira obra de arte do gênero dramático - como não chegar às lágrimas assistindo a esta história? Como não torcer e não se emocionar com a simplicidade de Coffey, odiado por algo que não cometeu?

Tom Hanks está fantástico na pele de Paul Edgecomb, conduzindo a história lado a lado com Michael Clarke Duncan. Sua atuação como John Coffey é espetacular, tão intensa e tão cheia de emoção que muitas vezes eu me esquecia de que aquilo era um filme. Não é à toa que seu papel neste filme lhe rendeu uma indicação ao Oscar por melhor ator coadjuvante - troféu que ele, infelizmente, não levou para casa.

A adaptação da obra também é fiel, embora conte com algumas mudanças. Ela foi feita integralmente pelo diretor (que também recebeu uma indicação ao Oscar pela adaptação), que com habilidade extraiu o máximo dos atores em cena, guiando esse filme memorável. As pequenas atuações, de personagens que não concentram o foco da trama - seja da esposa de Paul, seja do seu chefe, seja dos outros guardas que não têm tanto destaque - dão uma incrível noção de realidade para o filme, apesar do seu forte caráter de mistério e de ser sobrenatural.

Não tenho motivos para acreditar que a adaptação cinematográfica fique devendo em qualquer aspecto ao texto original que lhe inspirou. Stephen King deve ter ficado muito orgulhoso de ver suas palavras adquirirem três dimensões tão sólidas na frente dos olhos de todos.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Razão e Sensibilidade (1995)



Nome: Razão e Sensibilidade (Sense and Sensibility).
Diretor: Ang Lee.
Gênero: Drama/romance/comédia.
Elenco: Emma Thompson, Alan Rickman, Kate Winslet, Hugh Grant e outros.
Nota: 4 estrelas.
Página no IMDb

Adaptação do livro de mesmo nome da escritora britânica Jane Austen, críticos da sua obra dizem que Razão e Sensibilidade é o seu livro mais fraco, mas a fonte de um filme maravilhoso. A transformação para o cinema foi feita pela própria Emma Thompson, atriz que também participou do filme.

O filme começa com a morte de Mr. Dashwood, que deixa a sua segunda esposa com três filhas de diferentes idades sozinhas. Ele implora no seu leito de morte para que seu filho (do primeiro casamento) não deixe as garotas abandonadas - mas a sua nora é gananciosa e no final, a soma que fica de fato para as irmãs é ínfima.

Sabendo que perderão a casa onde vivem atualmente para o filho homem de seu pai no primeiro casamento, nenhuma das três irmãs Dashwood está feliz com a situação, mas demonstram seu descontentamento de maneiras diferentes: Elinor (Emma Thompson) é prática, reprime suas emoções e é extremamente racional; Marianne (Kate Winslet) é mais nova e emotiva, amante da poesia e de sentimentos fortes e intensos. Por fim, Margaret (Emilie François) ainda é muito nova para se envolver em relacionamentos, mas tem criatividade e inteligência de sobra.

John Dashwood (James Fleet) é o filho de Mr. Dashwood que herdará a casa, e ele chega à mesma junto com sua esposa - uma mulher extremamente arrogante e desagradável com todos, que não faz questão alguma de esconder que quer as três irmãs e a senhora Dashwood o mais rápido possível fora dali.

O cunhado de John Dashwood chega à mansão para passar alguns dias com a irmã, e quando todas já se preparam para mais um homem intragável, a família Dashwood se supreende com Edward Ferrars (Hugh Grant), um galante e educado homem que estima muito as três irmãs e convive amigavelmente com todas. No entanto, é com Elinor que ele desenvolve uma ligação mais profunda, e mesmo a mais racional das irmãs não consegue negar que sente algo por Edward quando elas recebem a notícia de que um primo distante tinha um chalé vazio no qual elas poderiam morar confortavelmente.

A partida é triste, mas Edward promete visitá-las na nova casa em breve. Assim que chegam ao novo chalé com apenas dois dos antigos criados, elas conhecem o dono daquelas terras: o distante primo dos Dashwood, Sir John Middleton (Robert Hardy) que é viúvo e mora com sua mãe, a fofoqueira e animada Mrs. Jennings (Elizabeth Spriggs). Eles insistem em fazer as refeições junto às irmãs e a senhora Dashwood, sob a desculpa de que não há muito o que fazer por lá - alertando Elinor, inclusive, de que seu amor misterioso será descoberto um dia, porque ninguém guarda segredos ali.

Durante uma tarde na casa de Sir John, todos se retiram para a sala de música para ouvir Marianne tocar - excelente pianista, a garota adora cantar também e é durante essa pequena apresentação que o Coronel Christopher Brandon (Alan Rickman) conhece a sensível Marianne e se apaixona por ela. O Coronel e Sir John são amigos de longa data, de quando lutaram juntos na guerra na Índia.

O interesse do Coronel em Marianne é o que Mrs. Jennings precisava para animar os arredores, e começa a pensar em como casá-los apesar da idade do Coronel - ela se orgulha da incrível quantidade de casamentos perfeitos que já arrumou, incluindo sua filha. Mas a própria Marianne não liga muito para isso e despreza o Coronel, ficando muito mais encantada com outro homem - John Willoughby (Greg Wise), um nobre que a encontra na chuva, justamente quando ela havia torcido seu tornozelo e estava em apuros.

Os dias prosseguem calmamente, sendo que Edward nunca as visitou ou escreveu - salvo por uma vez, para enviar um presente à Margaret. Willoughby e Marianne parecem cada vez mais apaixonados, com interesses em comum e passando todo o tempo juntos, coisa que evidentemente magoa o bondoso Coronel. Mesmo assim, ele convida a todos para um piquenique nas suas terras, quando a chegada de uma carta de conteúdo desconhecido faz com ele parta subitamente e cancele o passeio. Suspeita-se que seja relacionada ao seu passado nada feliz.

Uma manhã Willoughby pede a Marianne uma conversa em particular, e enquanto todos esperavam que uma proposta forma de casamento viria dele, é a sua partida imediata para a capital que ele declara, sem explicar direito seus motivos. Marianne cai em depressão, uma que parece tão funda a ponto de ninguém conseguir ajudá-la. Apenas a sugestão de uma viagem para Londres com Mrs. Jennings é que anima novamente a garota, mas traz desespero para Elinor ao mesmo tempo - ela conhece Lucy Steele (Imogen Stubbs) uma noite, que confessa estar noiva de Edward há anos, em segredo.

A estadia em Londres é confusa; Marianne manda várias mensagens para Willoughby, mas nenhuma é retornada. Ela o reencontra, finalmente, numa festa - mas com outra mulher. Marianne não passa bem e sai cedo do baile, no dia seguinte recebendo uma carta, onde Willoughby apenas diz que está compromissado com outra mulher, e que o casamento com ela não deverá tardar.

Elinor decide levar Marianne de volta para casa e pede ajuda para o Coronel para poder terminar o trajeto de Londres até o chalé onde residiam. O Coronel concorda imediatamente - e conta uma história do seu passado, que explica muito do seu comportamento e personalidade.

Porém, antes da partida das irmãs para o campo, Elinor recebe Lucy na casa de Mrs. Jennings na cidade e Edward aparece para visitá-la, encontrando ambas. No entanto, eles mal conversam e há uma atmosfera estranha entre todos.

Pouco tempo depois, a cidade inteira descobre sobre o noivado secreto de Lucy e Edward - o último sendo forçado a desfazer o compromisso ou ser deserdado. Leal à Lucy, ele se recusa a seguir as ordens da família e termina sem dinheiro algum. Marianne, nesse momento, começa a entender melhor algumas das ações de Elinor também.

O Coronel, ouvindo sobre a situação de Edward, propõe que ele vá morar em uma parte das suas terras com Lucy - já que ele conhece bem as dores de ser separado de alguém que se ama há muito tempo. É na casa da filha de Mrs. Jennings e de seu marido que eles param antes de chegar ao chalé, e é lá também que Marianne decide dar outro passeio que também acaba em chuva. Dessa vez, quem a resgata é o Coronel, que também busca a mãe das irmãs para ver Marianne quando esta adoece gravemente.

Ela se recupera e quando todas já estão de volta ao chalé, o Coronel também passa uma boa parte do seu tempo por lá, ajudando na recuperação de Marianne. Ele também a presenteia com um piano, e é enquanto ela já treinava a música que ele enviou junto com o instrumento que uma visita inesperada chega, com notícias ainda mais arrebatadoras - e um final feliz para todos se segue.

O filme é magnífico. Ang Lee conseguiu capturar a essência do livro, que realmente passeia pelo drama, pelo romance e também pela comédia. A grande sensibilidade desse diretor para focar os sentimentos humanos e tirar atuações esplendorosas dos atores iria se tornar muito mais famosa com o seu trabalho em Brokeback Mountain, mas já pode ser definitivamente notada aqui.

Os quatro atores principais estão formidáveis, mas o elenco de apoio não faz por menos - em especial Margaret. A personagem não tem tanto espaço assim no livro, mas acrescenta todo um charme e graça à película que é indiscutível. Os cenários e os detalhes de época também são de encher os olhos.

Existe uma cena em particular que costuma encantar todos os fãs de poesia e em especial, da voz de Alan Rickman: o momento em que ele lê algumas linhas para Marianne é altamente celebrado por todas as suas fãs, e é de fato uma cena tocante que pode ser inclusive conferido em sites como o YouTube.

É uma linda produção que merece todas as críticas positivas que ganhou até hoje, sem exceção. Um lindo contraponto entre razão e sensibilidade que é tão comum dentro de todos nós.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O Patriota (2000)



Nome: O Patriota (The Patriot).
Diretor: Roland Emmerich.
Gênero: Ação/drama/guerra.
Elenco: Mel Gibson, Jason Isaacs, Heath Ledger, Joely Richardson e outros.
Nota: 3 estrelas.
Página no IMDb

O Patriota é o tipo de filme que todo mundo assistiu, mesmo que não por inteiro. Pode ter sido na televisão aberta, em uma loja de eletrônicos ou ainda na escola como complemento em História quando se estudou a Independência Americana - meu caso, por sinal.

Estamos no final do século XVIII, no estado da Carolina do Sul. Benjamin Martin (Mel Gibson) é o pai de sete crianças e vive em uma grande fazenda, longe da cidade. O correio é o único contato que eles possuem com a vida na cidade, e logo fica claro que a guerra pela independência das colônias está chegando ali também.

Gabriel (Heath Ledger), o filho mais velho de Benjamin, está ansioso para lutar como soldado, mas seu pai sabe dos horrores que um confronto como esse traz, ele mesmo sendo um antigo soldado aclamado. No entanto, isso não impede que ele se aliste na primeira visita à cidade que a família faz.

No entanto, não é porque Benjamin escolheu ignorar a guerra que ela decidirá fazer o mesmo. Dois anos depois da partida de Gabriel, ele retorna ferido até a sua casa, transportando documentos de guerra. Naquela mesma noite, a guerra chega até a fazenda de Benjamin e todos podem ver os corpos de soldados americanos e ingleses espalhados pelo chão na manhã seguinte, alguns ainda vivos.

Eles decidem recolher e tratar os feridos, sem distinção de nacionalidade. Quando os empregados da casa e a família de Benjamin estão ocupados com os combatentes, um oficial inglês chega ali e agradece pela ajuda, mesmo sendo do lado inimigo. No entanto, o clima de cordialidade é quebrado com a chegada de um outro militar, Coronel Tavington (Jason Isaacs), um combatente inteligente, arrogante e sobretudo cruel.

Com ordens rápidas e sem qualquer remorso aparente, o coronel manda seus soldados matarem todos os americanos que estavam se recuperando, levando os ingleses para serem tratados pelos seus próprios médicos. É nesse momento que ele decide levar Gabriel com ele também para ser posteriormente enforcado - apesar das leis de guerra impedirem isso.

Em uma tentativa vã de salvar o irmão, o segundo filho mais velho de Benjamin é assassinado cruelmente pelo coronel, deixando o patriarca desesperado e em fúria também. Com a casa destruída por ordens de Tavington por ter abrigado ingleses, ele deixa seus três filhos menores nas ruínas da mesma e parte com outros dois para as matas, seguindo o cortejo que levava Gabriel prisoneiro.

Sozinhos, eles conseguem não somente matar todos os soldados ingleses como resgatar Gabriel, que não perde tempo em vestir seu uniforme e partir novamente para a guerra. Benjamin, então, decide deixar seus outros filhos com a irmã de sua falecida esposa, Charlotte (Joely Richardson) e acaba se unindo ao seu filho mais velho, ambos agora lutando pelo futuro Estados Unidos da América.

Para Benjamin, é claro que os colonos nunca irão ganhar dos ingleses em batalhas convencionais - eles estão melhor armados, preparados e em maior número do que os colonos. A saída, portanto, é lutar de uma forma diferente: organizando uma milícia, pai e filho começam a recrutar colonos que possam lutar com eles, aproveitando o conhecimento da geografia local de cada um deles para formar um grupo paramilitar comandado por Benjamin, que começa a ter sucesso e monta seu "quartel general" em um pântano.

A principal tática no começo é o roubo de armas, alimentos, roupas e tudo mais que eles encontrassem - incluindo os cachorros e uma boa quantidade de objetos pessoais de Lorde Cornwallis (Tom Wilkinson), o grande responsável pelo exército britânico na Carolina do Sul. É esse roubo, especialmente o dos cachorros, que faz com que Lorde Cornwallis autorize a utilização de ténicas brutais e mais cruéis por Tavington, na esperança de deter a milícia. Antes fica bem claro que esses métodos nada usuais de Tavington são desprezados por Cornwallis, que responde pelos abusos do seus subordinados - e falar em abusos é diminuir a crueldade de Tavington, que ganhou o curioso apelido de "o açougueiro" da população local.

É com essa autorização que o coronel então persegue a família de Benjamin na casa de Charlotte, mas eles conseguem escapar e são liderados para uma ilha de escravos libertos, onde podem ficar em segurança. Gabriel se casa, Benjamin e Charlotte iniciam um relacionamento e algum período de paz se passa entre eles até o retorno para a guerra ou para as cidades, quando a esposa de Gabriel (Lisa Brenner), juntamente com todos os moradores da sua vila, são queimados vivos dentro da igreja local.

Ao encontrarem a vila destruída, muitos saem em busca de vingança, indo atrás dos ingleses e em especial, do Coronel Tavington. Gabriel, tomado por grande desespero e fúria ainda maior, consegue eventualmente acertar um tiro em Tavington - mas é o inglês que vence a batalha no final, ferindo mortalmente o filho mais velho de Benjamin e deixando este em profundo desespero depois.

Desse momento para a batalha final, muita coisa acontece; membros da milícia escapam da forca com um plano engenhoso de Benjamin, que troca ameaças de morte com Tavington. O grande trunfo dos colonos está no fato de que são uma organização paramilitar, freqüentemente subestimados pelas tropas britânicas - talvez o erro fatal em termos de estratégia da Inglaterra.

A batalha final conta com o esperado confronto pessoal entre Benjamin e Tavington, sendo que o resultado não é difícil de prever. Quando os ingleses batem em retirada da Carolina do Sul, vemos que pouco tempo depois eles são acuados pelo exército dos colonos e pela ajuda francesa que chegou pelo mar depois de meses de espera.

O primeiro alerta que eu considero pertinente a ser feito é sobre a veracidade dos fatos apresentados: enquanto os figurinos e os cenários são magníficos e dão a sensação de que estamos mesmo vendo algo que se passou séculos atrás, o filme não segue uma linha precisa ou verdadeira. Tanto Benjamin Martin quanto William Tavington são ficcionais e incorporam elementos de mais de uma personalidade daquela época. Não espere por grandes reviravoltas de enredo - a trama é previsível.

O meu maior problema com o filme é o modo como ele parece orbitar ao redor de Mel Gibson. Tudo na guerra parece depender única e exclusivamente dele - se ele lutar, os colonos ganham; se ele ficar em casa, não há esperança para ninguém. As características de um bom filme histórico estão lá, mas muito distorcidas pelo drama particular de um homem só, o que é pequeno se comparado ao tamanho da guerra - razão, aliás, que levou Harrison Ford a rejeitar o papel de Benjamin Martin.

Outra coisa é a capacidade do filme em manipular a audiência: tendo em Tavington o principal expoente do exército inglês, tende-se a acreditar que o comportamento dele era o modelo das tropas britânicas, quando ele é claramente uma exceção - uma fantástica e maravilhosa exceção retratada com maestria por Jason Isaacs, disparado o melhor ator em cena. Mas ainda sim, deve-se ter em mente de que é um filme americano, contando o lado dos mesmos.

Em relação a atuação do resto do elenco, eu não acho que ela seja muito digna de nota. Nenhum dos filhos de Benjamin, salvo por Gabriel, faz algo que mereça muito tempo de cena ou que seja memorável. A maioria dos personagens tem apenas duas dimensões - falta profundidade. Eu, pelo menos, não senti nenhum pesar ao ver tanta gente sendo queimada na igreja, porque eles simplesmente não inspiraram simpatia alguma antes.

No mais, o filme é uma boa diversão e é melhor se visto na versão estendida, com algumas cenas que humanizam mais o cruel Coronel Tavington (e nada se sabe sobre o porquê/como ele ficou assim). Encare esta película como um passatempo recheado de ação em cenários épicos - porque são esses os méritos do filme.