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sábado, 9 de janeiro de 2010

Sherlock Holmes (2009)



Nome: Sherlock Holmes (Sherlock Holmes).
Diretor: Guy Ritchie.
Gênero: Ação/Aventura/Mistério/Policial.
Elenco: Robert Downey Jr., Jude Law, Rachel McAdams, Mark Strong e outros.
Nota: 4 estrelas.
Página no IMDb

"Elementar, meu caro Watson" será um frase que não será ouvida neste filme: aliás, este filme se propõe a atualizar os personagens mais famosos de Sir Arthur Conan Doyle, dando uma atmosfera mais "moderna" à série de livros e ao detetive particular mais conhecido do mundo inteiro sem que eles saiam da Inglaterra vitoriana dos livros originais - além de não seguir nenhum dos contos de forma principal.

A história começa com ação: Sherlock Holmes (Robert Downey Jr.) corre, planeja friamente como lutar e derrubar seus oponentes e, com a ajuda do Doutor John Watson (Jude Law), coloca fim a um ritual de sacrifício humano que estava sendo conduzido por Lorde Blackwood (Mark Strong), resultando na prisão deste e no salvamento da moça.

Blackwood é condenado à forca pelo crime e tem sua execução marcada para depois de três meses, tempo em que Holmes fica ocioso e completamente entediado. Enquanto isso, Watson decide que vai se mudar da casa do detetive depois de acertar o casamento com a jovem Mary Morstan (Kelly Reilly), idéia que perturba Holmes - já que o que não faltam são tentativas do detetive de impedir o amigo de levar o casamento adiante, procurando sabotá-lo de todo modo.

Pouco antes da execução de Blackwood, o próprio Sherlock Holmes é chamado até a prisão, já que a sua presença ali era o último desejo do condenado. Os dois homens conversam e Blackwood avisa que mais três mortes ocorrerão dali em diante e que a sua execução mudará os rumos do mundo. Apesar de tudo, o nobre é enforcado e sua morte é confirmada pelo próprio Watson.

Surge em cena Irene Adler (Rachel McAdams), uma golpista que foi a única que conseguiu enganar o detetive no passado - e ainda por cima, por duas vezes. Ela oferece dinheiro para que ele aceite um caso relativo ao desaparecimento de uma pessoa, mas não revela nada que dê pistas sobre para quem ela estaria trabalhando - o que força Holmes a se disfarçar para tentar obter maiores pistas. Logo depois, a notícia de que Blackwood voltou dos mortos chega até Holmes, e sua ajuda é requisita para tentar impedir que o pânico se alastre pelas ruas com tal acontecimento.

No lugar de Blackwood está o homem que Irene havia pedido para ser encontrado - e, com base em um relógio enterrado junto com o homem, Holmes e Watson chegam ao endereço dele, descobrindo um laboratório estranho porém falhando em descobrir no quê o homem trabalhava ali dentro. Os dois, porém, são surpreendidos com a chegada de capangas enviados ali para detruir qualquer tipo de evidência (já que os dois amigos já haviam descoberto uma ligação entre o morto e Blackwood), mas acabam na cadeia por toda a confusão criada logo depois.

Enquanto Watson tem a sua fiança paga pela noiva, Holmes sai devido a um pagamento feito pelo Templo das Quatro Ordens, uma sociedade secreta que lida com magia e da qual Blackwood era um membro - e um muito poderoso, nascido durante um ritual. Sem poderes para impedi-lo de seguir esse caminho, o chefe da sociedade pede ajuda a Holmes - que aceita prender o homem, mas não porque eles haviam solicitado. Pouco tempo depois, no entanto, dois membros antigos da ordem são assassinados e Blackwood passa a liderá-la, com planos de dominar a Inglaterra e retomar o domínio dos Estados Unidos como colônia. Para piorar as coisas para Holmes, Blackwood pede ao Ministro do Interior, um membro da seita, para manipular a polícia e expedir um mandado de prisão para o detetive.

Os dois amigos começam a seguir pistas deixadas para trás que levam a crer que Blackwood estaria em um matadouro - e os dois estavam certos, chegando a tempo de salvarem Irene de uma armadilha fatal, já que Blackwood parece estar eliminando todos os vestígios de seus planos. A fuga de Watson, Holmes e Irene é frustrada por uma bomba, acionada por outra armadilha e que acaba deixando Watson, entre todos, severamente machucado.

Desse momento em diante, a maior parte do que acontece é essencial para que se desvende o mistério que se segue, sendo impossível contar mais sem estragar o resto do filme. É verdade que a ação, as lutas, as situações humorísticas e vários outros elementos estão presentes, mas Sherlock Holmes é Sherlock Holmes e não se pode esperar nada mais nada menos do que um espetacular desfecho com base em todos os detalhes que a maioria das pessoas não viu enquanto assistia ao filme.

Acho a versão atual do detetive mais famoso do mundo competente: foi exatamente o que eu esperava, sem entregar nada que possa ser classificado como uma "obra-prima", mas sem deixar a desejar também; aparentemente, a melhor coisa que Guy Ritchie fez nos últimos anos foi se divorciar de Madonna, já que seus dois últimos filmes (este e "RocknRolla", de 2008) indicam uma retomada visível da sua carreira, com lançamentos consistentes e que têm devolvido a sua credibilidade como diretor.

Agora, as atuações: embora Robert Downey Jr. não tenha sido a primeira escolha para o papel por ser um pouco "velho demais" (aparentemente, a idéia era retratar Sherlock Holmes mais moço, mais ou menos como no reinício da franquia de "Batman", com Christian Bale no papel principal), fica difícil imaginar este filme de outra maneira: Downey Jr. esteve impecável com seu sotaque inglês (ele é americano), os maneirismos de Holmes, seu ritmo de cena e a sua caracterização como um todo. Jude Law não fica por menos: seu Doutor Watson é alguém no mesmo nível de Holmes, independente e que sabe decifrar quando está sendo manipulado pelo amigo.

Uma grande diferença dos livros para este filme está no relacionamento entre ambos, aliás: mais do que mestre e criado, mente brilhante e ajudante, eles estão em pé de igualdade, mostrando que, sem o outro, nenhum deles chegaria longe. As discussões e tiradas de ambos constituem os melhores momentos do filme e não raro eles se parecem com um casal velho briguento, mas daqueles tão entrosados que fica difícil para uma terceira pessoa entender e ser aceita naquela ligação tão exclusiva.

Essa "falta" de respeito com a caracterização dos personagens principais, a inserção de Irene como uma personagem quase fundamental e a correria e pancadaria que não estariam nos romances originais de Sir Arthur Conan Doyle podem afastar os puristas, mas a atualização, na minha opinião, é mais que bem-vinda. Não há dúvidas de que a franquia irá continuar - vi poucos filmes com ganchos tão óbvios para continuações quanto este, até porque o grande antagonista de Holmes nos livros não teve papel de destaque - ainda. A Londres vitoriana é bem retratada, o figurino inovador se ajusta aos personagens e a trilha sonora é impecável - mas aí, eu sou suspeita para falar porque simplesmente adoro o trabalho do Hans Zimmer, o compositor neste caso.

Um detalhe interessante do filme que merece ser destacado são os efeitos, quase como flashbacks mostrados a platéia, de como as coisas se desenvolveram. Quando Holmes ou Watson tiram conclusões sobre alguma coisa, as cenas originais são mostradas numa rápida sucessão à platéia, mostrando o que de fato aconteceu e possibilitando que todos entendam como os dois chegaram àquelas respostas por meio de suas deduções. Tal mecanismo foi usado de forma semelhante em "O Código da Vinci" (2006), mas não funcionou bem na época - eu acho que, neste caso, só serviu para confundir a platéia, enquanto aqui as ilustrações são bem-vindas.

É um filme, como disse, honesto: não tem pretensões de ser inovador mas não deixa de ser criativo; um filme que, felizmente, não tem nada de elementar.

sábado, 2 de agosto de 2008

O Enigma do Horizonte (1997)



Nome: O Enigma do Horizonte (Event Horizon).
Diretor: Paul W.S. Anderson.
Gênero: Horror/Ficção Científica/Suspense/Mistério.
Elenco: Laurence Fishburne, Sam Neill, Joely Richardson, Jason Isaacs e outros.
Nota: 3 estrelas.
Página no IMDb

Ficção científica e horror parecem dois campos impossíveis de funcionarem lado a lado; a tentativa feita pelo diretor Paul W.S. Anderson, no entanto, é bastante impressionante. Mais do que um filme de ficção científica, trata-se de um horror ambientado no espaço.

Estamos em 2047. A Terra já firmou sua primeira colônia na Lua, Marte é explorado economicamente e, sete anos antes, uma nave espacial chamada Event Horizon foi construída e enviada para pesquisas pelo universo - projetada para ir muito mais além do que suas antecessoras. A expedição, no entanto, transforma-se no maior desastre espacial da história quando a nave desaparece sem deixar sinal, próximo de Netuno.

Voltando ao ano de início da história, somos apresentados ao doutor William Weir (Sam Neill), convidado a bordo da nave Lewis and Clarke que por sua vez é comandada pelo capitão Joe Miller (Laurence Fishburne) e sua tripulação. Todos os integrantes da nave foram retirados das suas férias e forçados em uma missão até Netuno, sem saber direito os motivos ou as ordens que estão por trás de tudo.

É numa breve reunião que o doutor Weir explica à tripulação toda a verdade: as notícias sobre a Event Horizon ter explodido devido a um superaquecimento dos seus motores era mentira; ela, na verdade, havia desaparecido por completo e sem dar qualquer sinal - até o momento. Uma transmissão de áudio foi captada, proveniente da nave perdida. Uma edição desse arquivo de áudio dava a impressão de que uma voz humana pedia por socorro, falando em latim.

A Event Horizon foi contruída não para pesquisas, mas sim como um projeto secreto do governo; a nave foi feita com um motor específico que faria com que fosse possível viajar na velocidade da luz - mas sem quebrar as leis da física. A nave foi equipada com um gerador de buracos negros, que poderia distorcer o espaço-tempo de forma a possibilitar viagens em uma rapidez absurda, criado pelo Dr. Weir.

Após quase sessenta dias de viagem, a tripulação da Lewis and Clarke chega à Netuno, encontrando a Event Horizon flutuando na órbita do planeta. Como as varreduras por sinais vitais parecem estranhas, o capitão decide que a busca por sobreviventes deverá ser feita nos moldes antigos: andando por cada compartimento da nave com um time de busca. Levando consigo outros dois tripulantes, a equipe chega à nave abandonada.

De início, as impressões são sombrias; ninguém aparenta ter sobrevivido. A área médica parece nunca ter sido utilizada e o time de busca encontra pedaços de corpos humanos e tudo mais congelados, cristalizados devido ao problema com o aquecimento interno da nave. Enquanto isso, Justin (Jack Noseworthy) explora a engenharia da Event Horizon, descobrindo uma misteriosa esfera preta com três anéis metálicos girando constantemente ao seu redor: é o mecanismo criador de buracos negros - que surgem sempre quando os anéis se alinham sob o controle do capitão.

O curioso tripulante toca o centro da esfera, que parece feita de algum material líquido - mas, ao tocá-la por uma segunda vez, ele é sugado para dentro da mesma; a tripulação percebe que algo está errado e imediatamente vai resgatá-lo, mas algo dá muito errado na volta - uma estranha explosão combinada com a volta de Justin acaba por danificar severamente a Lewis and Clarke, forçando o resto dos tripulantes à migrarem para a Event Horizon.

Os sistemas básicos voltam à nave, como o gravitacional e o de ventilação, mas há um problema: o ar da nave será suficiente para apenas 20 horas, ficando tóxico para seres humanos depois disso em razão da concentração de gás carbônico. Começa, então, uma corrida contra o tempo para consertar a Lewis and Clarke e ir para casa, já que obviamente não há ninguém que precisa ser resgatado ali.

Coisas estranhas começam a acontecer também; ao seu modo, quase todos os tripulantes vêem pessoas conhecidas ou flashes de cenas dantescas, envolvendo sangue e dor. A primeira a passar por isso é a oficial médica Peters (Kathleen Quinlan), que acredita ter visto seu filho na nave; Justin, internado e sob obversação dela e de D.J. (Jason Isaacs), o outro médico, parece ter entrado em um estado de choque desde a sua experiência com o núcleo da nave; Dr. Weir tem visões da sua esposa e o próprio capitão tem lembranças perturbadoras do seu passado.

Enquanto a Lewis and Clarke segue sendo consertada por dois tripulantes, a Tenente Starck (Joely Richardson) fala de sua teoria sobre os sinais vitais esquisitos da nave para o capitão: o fato da origem dos sinais obtidos não ser identificada só pode dizer que vem da própria nave, como se esta estivesse efetivamente viva e reagindo a cada um dos tripulantes. Há, também, a possibilidade de que ela tenha trazido algo de volta da sua viagem de sete anos pelo buraco negro.

Os ânimos esquentam na Event Horizon; enquanto o Dr. Weir credita todas essas ilusões ao nível de gás carbônico que vem aumentando e a tensão nascida do risco de não se voltar para casa, outros acreditam que se trata de algo muito real para ser apenas imaginação. Nesse meio tempo, Justin acorda do seu estado de choque e tenta se suicidar, murmurando durante todo o tempo sobre "o lugar para onde ele foi", sobre "a escuridão dentro dele" e como ele não deseja voltar para esse lugar. Muito provavelmente Justin esteve onde a nave passou os últimos 7 anos, desaparecida.

O tripulante quase morre - mas tem suas condições estabilizadas por D.J., que tem uma conversa reveladora com o capitão; enquanto este fala que viu coisas que nunca tinha contado para ninguém (o que quer dizer que a Event Horizon provavelmente sabe o que vai na cabeça de cada um, materializando seus segredos e medos), o outro confessa que entendeu errado a mensagem em latim que todos ouviram no início da viagem: tendo sido ele o tradutor do arquivo de áudio, D.J. corrige sua versão inicial para algo que é, na verdade, "salvem-se do inferno".

O conserto da Lewis and Clarke finalmente termina e a tripulação se prepara para voltar, particularmente ansiosa depois de ter assistido a um vídeo recuperado da Event Horizon que mostra os antigos tripulantes sendo brutalmente assassinados por um estranho ser cheio de cicatrizes - o autor da frase em latim. Ao abortarem a missão e receber a ordem de abandonar a nave para voltar para casa, o Dr. Weir fala que ele está em casa, começando a agir de uma forma suspeita.

Um por um, a maioria dos tripulantes começa a alucinar e/ou então sofrer ataques do Dr. Weir, que, após a morte de Peters, arranca os próprios olhos e começa a perseguir os tripulantes da Lewis and Clarke, enquanto inicia uma contagem regressiva para fazer o retorno da nave para onde ela esteve nos últimos anos. O capitão, porém, percebe algo de errado e alerta a tripulação, buscando separar os decks frontais da Event Horizon do resto da mesma como medida de segurança - o próprio doutor havia explicado que a nave possuía esse mecanismo mais cedo.

As seqüências finais lidam com mais aparições, sangue e pesadelos - a maioria sobre o inferno, já que foi essa a dimensão paralela onde a Event Horizon esteve. O final do filme, de uma maneira geral (bem como a sua estrutura), me lembra Sunshine, outro filme que trata de uma expedição espacial - mas com uma missão diferente (e feito em 2007, dez anos após este).

Eu sou facilmente assustada por filmes de terror e admito que não sabia de que estava assistindo um até certo tempo depois; no começo, eu estava convencida de que se tratava mais de um representante do gênero de ficção científica, esse sim um campo que eu adoro. Mas tenho que confessar que, embora não seja nada extraordinário, O Enigma do Horizonte realmente assusta em alguns momentos.

O mistério todo relacionado à Event Horizon funciona bem; durante a primeira hora do filme, as visões da tripulação, a tensão dentro das naves e a contagem regressiva em relação ao ar "respirável" criam um clima de apreensão excelente para esse tipo de filme - a platéia eventualmente se assusta junto com os personagens. Mas nos vinte minutos finais, eu tenho a sensação de que o filme poderia ter sido cortado sem prejuízos - afinal, os diálogos ficam estranhos e as motivações dos personagens mais ainda.

Laurence Fishburne e Sam Neill são os atores com mais destaque em cena; ambos acrescentam algo ao filme com suas atuações, especialmente Laurence; é impossível para mim, no entanto, não ligar o seu papel como o capitão Miller aqui ao seu Morpheus de Matrix, mesmo sabendo que a trilogia foi feita depois; ambos são capitães de naves que agem de uma forma muito semelhante para não serem comparados, sem contar que é esse tipo de personagem (autoritário, em posição de poder e de caráter mais militar) que se transformou na sua marca registrada como ator.

O Dr. Weir de Sam Neill também me impressionou; gostei particularmente da mudança que se opera nele do início para o final do filme, assumindo contornos macabros e bem perturbadores; o mesmo não digo de Joely Richardson, que não me convenceu muito com a sua tenente - a personagem é fraca e sem muito de interessante a acrescentar, ficando um pouco presa ao estereótipo de personagens femininas de séries de ficção científica. Mas está aí outro ponto fraco: ninguém se preocupou muito em fazer bons personagens com boas histórias - eles estão lá simplesmente para serem mortos e exibidos ao público depois, sem criar grandes laços com a platéia a ponto de que ela se identifique com algum deles. O personagem de Richard T. Jones é o responsável pelas poucas partes cômicas e se sai bem nelas.

Jason Isaacs é alguém que eu não posso honestamente criticar com imparcialidade; eu simplesmente acredito que ele está perfeito em todos os seus papéis, mesmo com o seu estranho médico. D.J. é um dos poucos que não é assombrado e parece pouco disposto a acreditar em aparições, sendo um personagem mais consistente - mas sofre do mesmo mal: falta de história pessoal, motivos, justificativas - enfim, tudo aquilo que colabora para que um personagem fictício tenha, de fato, três dimensões.

A fotografia e a trilha sonora são boas e combinam com o tipo de filme; os tons sombrios predominam de uma forma assustadora e todos os clichés do gênero são utilizados (da falta de luz nas naves aos ângulos de câmera que sempre mostram os personagens se assustando de forma que a platéia também se assuste). Na minha opinião, o filme poderia dispensar a maioria das cenas envolvendo carnificina - não sou fã desse tipo de coisa, confesso; mas acho que o suspense psicológico e os sustos e traumas são muito mais assustadores do que gente sendo dissecada viva.

Mesmo não sendo uma grande fã do gênero, dá para ver que o final desanda; deu a impressão de que queriam fazer algo muito mais grandioso, sangrento e macabro do que realmente ficou. Mas ele realmente assusta, faz arrepios descerem a espinha e, finalmente, faz jus à tagline "espaço infinito - terror infinito".

domingo, 21 de outubro de 2007

À Espera de Um Milagre (1999)



Nome: À Espera de Um Milagre (The Green Mile).
Diretor: Frank Darabont.
Gênero: Drama/Mistério/Fantasia.
Elenco: Tom Hanks, Michael Clarke Duncan, David Morse, Doug Hutchison e outros.
Nota: 5 estrelas.
Página no IMDb

Freqüentemente o cinema busca sua inspiração em outra forma de arte: a literatura. Desta vez, o autor escolhido foi Stephen King, um dos mestres do terror, subrenatural e suspense. E a adaptação cinematográfica faz jus à sua renomada obra.

O filme se passa como um longo flashback: Paul Edgecomb (Tom Hanks) conta a uma amiga sobre o verão do ano de 1935, quando era policial e trabalhava no corredor da morte de uma prisão no estado americano da Louisiana. O nome original do filme vem justamente do fato de que costumava-se dizer que os prisioneiros ali mantidos caminhavam sua última milha sobre um piso de cor verde da sua cela até a grande "atração" do local - a cadeira elétrica.

Um dia, um novo prisioneiro chega: seu nome é John Coffey (Michael Clarke Duncan), um negro de altura impressionante mas que se revela um gigante calmo: ele conversa delicadamente, tem medo do escuro e chora várias vezes - algo que parece terrivelmente ilógico dada a sua condenação pelo estupro e assassinato de duas garotinhas brancas.

A convivência entre os prisioneiros e os guardas é relativamente amistosa, com o respeito imperando ali. É costume que a execução de cada um deles seja treinada antes de ocorrer efetivamente, para impedir qualquer erro que prolongue o sofrimento dos condenados. A rotina é normalmente calma até o dia em que um pequeno rato aparece em frente a mesa dos policiais, que pede por comida e depois se esconde na solitária (utilizada como depósito), onde ninguém consegue encontrá-lo. O mesmo rato torna-se alvo da obsessão de Percy Wetmore (Doug Hutchison), um guarda que possui ligações poderosas mas adora estar ali porque pode intimidar, provocar e causar todo o tipo de sofrimento aos presos - um verdadeiro sádico, desprezado pelos seus colegas.

O mesmo ratinho volta a aparecer mais tarde, tendo sido "domado" por Eduard Delacroix (Michael Jeter), que o nomeia Mr. Jingles. O animalzinho passa a morar na mesma cela de Delacroix, e obedece todos os comandos do preso - um fato surpreendente para todos. Chega também à prisão um sujeito extremamente estranho: William Wharton (Sam Rockwell), que engana a todos como um falso louco e quase estrangula um dos guardas na sua chegada.

É com muito esforço que Wharton (ou "Wild Bill", como é conhecido) é controlado, e quando o guarda atacado é levado embora para ver um médico, Edgecomb se deixa cair no chão da prisão: ele sofre de uma estranha infecção urinária que não vai embora e que nos últimos dias vinha enlouquecendo-o de dor.

No chão e obviamente sofrendo, John Coffey começa a chamar pelo policial e pede para vê-lo - e apesar de dizer que aquela não é uma boa hora, Edgecomb atende o pedido no final - somente para ser agarrado pelo gigante e então ter seu problema curado.

Coffey consegue tocar a parte afetada e então transmitir para si mesmo a doença, depois então abrindo a boca e expelindo do seu próprio organismo tudo aquilo que tinha dentro do seu corpo. Depois desse processo, ele sempre sente um cansaço extremo e dorme, sem querer falar ou comentar sobre nada. Edgecomb comenta com Brutus Howell (David Morse) o milagre que ele acredita ter se operado, mas nenhuma outra prova a respeito dos poderes de John Coffey aparece.

A rotina na prisão segue normalmente, apesar das constantes interferências de Wild Bill - ele não gosta de nenhum dos outros presos e odeia principalmente os policiais, tendo feito todas as malcriações e se comportado do pior jeito possível com todos ali dentro. Ele apronta até mesmo com Percy Wetmore, que fica muito assustado com o fato, inclusive urinando nas próprias calças depois do nervoso e medo que experimentou nas mãos de Wild Bill - e em seguida ameaça o resto dos policiais de demissão, porque se alguma coisa a respeito daquele incidente se espalhasse, todos eles perderiam seus empregos, já que ele possuía conexões importantes.

É ele também que mata Mr. Jingles um dia, feliz por finalmente ter eliminado o rato que tanto lhe incomodava em proporções maiores do que o normal. Desesperado, a dor de Delacroix ao perder o seu animal de estimação é comovente - e os policiais ficam assustados com a crueldade e aparente insanidade de Percy também. É nesse momento que John Coffey pede para que lhe tragam o ratinho, dizendo que talvez ainda haja tempo para ele.

Sem entender nada, os policiais entregam o ratinho - e vêem Coffey trazê-lo de volta a vida, utilizando os mesmos poderes e o mesmo processo anteriormente empregado na infecção de Paul Edgecomb. Dessa vez, há testemunhas, sobretudo Delacroix - que não consegue expressar sua gratidão em palavras ao ver seu caro Mr. Jingles de volta. Percy, ao saber do ocorrido, recusa-se a acreditar em qualquer coisa como um milagre e se sente pessoalmente ofendido.

A vingança do guarda se dá da pior maneira: durante a execução de Delacroix. Ele havia pedido para o chefe da seção (Paul Edgecomb) para comandar uma única execução e então se mudaria para outro cargo, deixando o resto dos policiais livres dele, fato que todos enxergam como sendo benéfico. Cabe à pessoa que lidera às execuções na cadeira elétrica a colocar uma esponja cheia de água sobre a cabeça do condenado (em um lugar onde o cabelo foi previamente raspado) para que a eletrecidade seja conduzida mais rapidamente pelo corpo do preso e assim, ele morra mais rapidamente e sem tanto sofrimento. No entanto, seu ódio pelo antigo dono do ratinho faz com ele coloque a esponja seca na cabeça de Delacroix e autorize a execução.

A cena é grotesca: os gritos, a duração dos choques e o cheiro que a atitude de Percy causam chocam policiais e sobretudo as pessoas que vieram assistir à execução. Enquanto isso, John Coffey fica com Mr. Jingles nas mãos, aparentemente sentindo uma parcela da dor de Delacroix, inclusive fazendo com que o ratinho escapulisse das suas mãos e fugisse da prisão. As lâmpadas ao longo do corredor da prisão estouram na medida em que Coffey se esforça para minimizar o sofrimento do antigo colega de prisão.

Dois importantes fatos se seguem então: convencidos dos poderes sobrenaturais que Coffey possui, os guardas, liderados por Paul Edgecomb, traçam um plano para levá-lo até a esposa do chefe deles (James Cromwell), que tem um tumor no cérebro e que está provocando a sua morte. No meio do plano, eles acabam também punindo Percy pela execução de Delacroix, deixando-o amordaçado e preso numa camisa de força dentro da solitária. No entanto, antes que consigam sair com John Coffey pelo
corredor, ele é agarrado por Wild Bill e algo estranho se dá entre eles - algo que deixa Coffey profundamente perturbado mas que ele não confidencia a ninguém.

A cura do câncer funciona perfeitamente - e as demonstrações que cercam a todos enquanto o processo ocorre são fortes demais para serem ignoradas, como por exemplo a casa toda tremendo. Dessa vez, porém, Coffey não retira de dentro de si o grande mal que absorveu, o que preocupava gravemente os policiais. Mas também, eles não julgam Coffey por isso - se ele prefere morrer de câncer a morrer na cadeira elétrica, ninguém o culpa por isso.

Mais tarde John Coffey acaba conseguindo punir os dois "homens maus" que existiam por perto segundo ele (Wild Bill e Percy Wetmore), cada um recebendo um castigo diferente. Conforme a execução de Coffey se aproxima, os policiais tentam fazer de tudo para ajudá-lo, ainda mais por saberem que ele é, no final das contas, inocente - mas o gigante se recusa a continuar vivendo em um mundo onde tanta desgraça e dor existem. Com uma refeição diferenciada e tendo o desejo de assistir a um filme atendido, ele é levado para a sua execução, onde os guardas mal conseguem conter a emoção.

A execução dele se dá sem o capuz que os presos normalmente vestiam - ele continua tendo medo do escuro. Os pais das garotinhas assassinadas aparecem para o acontecimento assim como um bom número de pessoas, todas condenando Coffey, um homem bom e que é definitivamente um milagre enviado por Deus para a Terra. Paul não sabe como Deus irá perdoá-lo por ter matado um dos seus milagres, e ele se desliga do corredor da morte pouco depois.

O filme retorna ao presente, com o já velhinho Edgecomb finalizando sua história, que não convence a amiga que a ouviu pacientemente. Mas ainda existem provas da veracidade dos fatos que deixam a senhora perplexa - bem como todos os espectadores. O final, com linhas poéticas carregadas de emoção, levam qualquer um às lágrimas e indagações profundas a respeito do mundo e da sua cruel realidade.

O filme é longo, com praticamente três horas - mas não se sente o tempo passar. O filme é uma verdadeira obra de arte do gênero dramático - como não chegar às lágrimas assistindo a esta história? Como não torcer e não se emocionar com a simplicidade de Coffey, odiado por algo que não cometeu?

Tom Hanks está fantástico na pele de Paul Edgecomb, conduzindo a história lado a lado com Michael Clarke Duncan. Sua atuação como John Coffey é espetacular, tão intensa e tão cheia de emoção que muitas vezes eu me esquecia de que aquilo era um filme. Não é à toa que seu papel neste filme lhe rendeu uma indicação ao Oscar por melhor ator coadjuvante - troféu que ele, infelizmente, não levou para casa.

A adaptação da obra também é fiel, embora conte com algumas mudanças. Ela foi feita integralmente pelo diretor (que também recebeu uma indicação ao Oscar pela adaptação), que com habilidade extraiu o máximo dos atores em cena, guiando esse filme memorável. As pequenas atuações, de personagens que não concentram o foco da trama - seja da esposa de Paul, seja do seu chefe, seja dos outros guardas que não têm tanto destaque - dão uma incrível noção de realidade para o filme, apesar do seu forte caráter de mistério e de ser sobrenatural.

Não tenho motivos para acreditar que a adaptação cinematográfica fique devendo em qualquer aspecto ao texto original que lhe inspirou. Stephen King deve ter ficado muito orgulhoso de ver suas palavras adquirirem três dimensões tão sólidas na frente dos olhos de todos.